Li este texto no Duvido!!, e é bom demais pra que não seja replicado. É a mais pura e simples realidade.
"Permitam-me, bons leitores, quebrar um pouco o estilo habitual deste blog. Hoje, gostaria de comentar certos acontecimentos ocorridos na minha vida particular. Epero que entendam.
Recentemente, passei por uma reforma na minha casa. Demoli algumas paredes, construí outras, troquei o telhado. O resultado disso foi uma pilha de entulho no meu quintal: tijolos, cimento, madeira, pedaços de telha.
A pilha está completando seis meses no meu quintal. Poderia eu mesmo tirar a pilha de lá, mas não tenho tempo, paciência ou disposição física para fazê-lo. Prefiro pagar alguém para que tire aquele monte de entulho de lá.
Forneço todas as ferramentas necessárias. Pago até bem: meio salário mínimo por um serviço que pode ser tranquilamente feito em cinco ou seis horas. Levando-se em conta minha falta de paciência para com este serviço, consideraria isso um dinheiro bem gasto; levando-se em conta o mercado, é um bom pagamento.
Mas, como eu disse, a pilha está lá há quase seis meses. Não consigo achar ninguém que aceite fazer este serviço.
Mas por que estou incomodando vocês, leitores, com nisso? Não é uma banalidade?
Talvez seja, realmente. Mas a minha verdadeira motivação para escrever sobre isto foi a ocorrência de um outro fato, bem mais recente.
Nesta madrugada de sábado para domingo fui acordado pelos meus cães, que vieram à janela do meu quarto latir. Eu e minha esposa, então, começamos a ouvir passos sobre o telhado da construção ao lado da minha casa, também no meu terreno. Alguém quebrou uma telha, e, não se importando muito com o barulho, desceu, acendeu a luz e começou a separar ruidosamente itens para furtar.
Ora, em um momento destes, não há de se ter dúvidas: chamei a viatura da segurança, peguei um martelo e fomos deter o malandro. Na verdade, eram dois marginais.
Um deles, alarmado pela chegada das viaturas, conseguiu fugir. O outro, um jovem de cerca de 20 anos, preferiu se esconder sob uma mesa. Foi encontrado pelos cães, removido por um grupo de vigilantes, imobilizado, interrogado e levado ao Palácio da Polícia pelos policiais militares que chegaram um pouco depois.
Obviamente, neste meio tempo, teve a natural cota de corretivo físico à qual um invasor, pego no flagrante e resistindo à detenção, faz jus.
O delegado provavelmente teria liberado o jovem em outras circunstâncias. Mas uma olhada na sua ficha, que tem 35 passagens pela polícia, todas por invasões frustradas, garantiu que desta vez ele não voltasse para casa. Está no Presídio, de onde vai sair sabe-se lá quando, devido às demoradas engrenagens da Justiça.
Não é a primeira vez que isto me acontece. Nestes últimos seis meses, minha propriedade sofreu mais de dez ataques, entre tentativas de invasão, de arrombamentos e furtos. De variadas pessoas.
Ao chegar em casa, tentei apurar se alguma coisa de valor tinha sido removida. Nada. Dos itens que os dois separaram para furtar, apenas quinquilharias, coisas de pequeníssimo valor, que não renderiam sequer cinquenta reais.
E, analisando tudo isso agora, eu continuo não podendo deixar de pensar… no entulho do meu pátio. Na minha pilha de entulho, que há seis meses não encontra quem queira nela trabalhar.
Sabem, há algo muito errado nisto.
Algo muito, muito errado.
Um trabalho honesto, digno, que não é exatamente regiamente remunerado, mas com um pagamento de acordo com o mercado, não encontra quem o faça. Um trabalho que não requer nada, senão boa-vontade. Um trabalho que um jovem saudável como aquele poderia muito bem fazer.
Agora, invadir a propriedade alheia para roubar uma insignificância - mesmo sabendo que há cães no pátio, que há placas da empresa de segurança privada no terreno, e que há três quartéis da Brigada Militar nas redondezas; mesmo sabendo que provavelmente levará uma surra se for pego; mesmo correndo o risco de ser mordido, espancado, morto, preso; de ter sua ficha ainda mais suja; mesmo sabendo que com estes atos irresponsáveis merece a vergonha de ser chamado de BANDIDO - ah, isso é aceitável.
Em que mundo estamos! Não há ninguém que aceite um trabalho eventual que eu estou a oferecer, mas uma vez por semana eu tenho que acordar no meio da madrugada para proteger minha casa destes idiotas, que preferem enfrentar todos estes riscos em nome de míseros dez, vinte ou cinquenta reais.
Há algo muito errado com isso, senhores. E eu não trato de apenas uma pessoa. Não é uma pessoa que fez a escolha errada. Se fosse o caso de uma pessoa só, eu não estaria aqui escrevendo isso. Também não estou dizendo que há empregos para todos, que basta procurar. Estou falando da cultura deste país.
Ora, quantas vezes alguém bateu à sua porta perguntando se há algum trabalho para fazer? Grama para cortar, árvores para podar, lixo para remover? “Há algo que eu possa fazer”? Na minha, nenhuma.
E quantas vezes já bateram à sua porta pedindo, simplesmente pedindo, em troca de nada? Cheios da razão, como se você, que tem mais, devesse se envergonhar por ter o que tem, ou devesse garantir o direito nato de alguém receber sem dar nada em troca, apenas porque este alguém “tem menos”?
De onde vem, o que gera, o que cria esta mentalidade? Eu não consigo entender. Meus parâmetros e minha educação são outros. Eu não sei.
Eu cresci em uma família que respeita a lei. Meus exemplos foram bons. Cresci com histórias de heróis que me ensinaram a amar a justiça, a buscar a cooperação entre as pessoas por meio do consenso da lei. Onde era errado preferir passar por cima da lei.
Eu cresci em uma família capitalista. Eu aprendi que não podia colocar nada nos bolsos da calça no supermercado, mas que eu deveria passar pelo caixa e trocar o pouco dinheiro que tinha pelo que eu queria - mesmo que isso representasse não poder comprar depois um gibi, ou qualquer outra coisa que quisesse. Que se eu o fizesse não estaria simplesmente “trapaceando nas regras”, como se não houvesse ninguém prejudicado: eu efetivamente estaria tirando algo de alguém, coisa que eu não queria que fizessem comigo ou com minha família.
Este é o meu contexto. O resto, eu não consigo entender. Eu me esforço, mas não consigo entender como alguém vive em paz consigo mesmo se submetendo a uma coisa tão baixa. E, mesmo que eu não faça juízos de valor, sobre correção ou não, sobre justiça ou injustiça, ainda assim não entendo como alguém analisa o risco e joga fora por tão pouco a sua vida, ou pelo menos longos meses que vai passar na prisão. Joga fora por nada, no caso do marginal que detive.
Procuro escrever sobre estas coisas sem me deixar influenciar pela emoção. Lembro do caso do Luciano Huck, que foi assaltado, teve seus pertences roubados e ainda foi vítima de todo tipo de agressão verbal pela tropa bárbara do politicamente correto e do relativismo ideológico. “Ele mereceu, é rico”, “tinha mais é que ser roubado mesmo, ele usava um relógio caro”.
Minha nossa, que tipo de país gera um absurdo destes? Que tipo de sociedade podre, de educação podre, de cultura podre permitimos que reproduza como uma praga uma mentalidade tão baixa, tão torpe? Que não veja nada de essencialmente errado em viver às custas dos outros? Que não veja nenhuma utilidade nas leis, que admita tão naturalmente a regressão à um estado selvagem? Que ache que a culpa da vida miserável de uns é a vida confortável de outro? Que legitime, que racionalize, que banalize todo tipo de desrespeito ao ser humano do lado - “porque ele tem mais que eu”?
Há alguma coisa muito errada com o brasileiro. Estamos regredindo, não como nação, mas como seres humanos. Estamos nos deixando perverter livremente por ideologias que nos aproximam cada vez mais dos meros animais. Ideologias que relativizam tudo, que não enxergam diferença entre o certo e o errado. Que não vêem nas leis utilidade: são meras expressões da vontade de “alguém que não eu”. Que acham que os fins justificam, e justificam completamente, os meios. Que acreditam que é razoável aceitar a imposição de alguns pela força e violência, com o argumento frouxo de que não se pode cobrar boa educação de todos.
Some-se a isto a sempre presente postura paternalista de gerações e gerações de governantes que viciaram nosso povo - a postura manifesta de que quem tem menos recursos tem o direito nato de ser sustentado por alguém, ou por uma instituição, sem crítica e sem análise de mérito - e criamos uma nação de “encostados”, de parasitas, de pessoas que não reconhecem a noção de alheio.
Some-se a isto a postura relativista das cabeças da nossa sociedade - de que não existem cidadãos “de bem” e não existem “marginais”, que todos são moralmente iguais, de que não há parâmetro objetivo para julgar a moral e a ética, de que tudo é mero ponto de vista - e transformamos estes “encostados” e parasitas em bandidos, em criminosos.
Se é que permitido falar isso neste país."
Mais uma vez, créditos ao Douglas Donin, do Duvido!!
17 de setembro de 2008
Há alguma coisa muito errada com o brasileiro
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1 comments:
Muito bom esse texto, Síndico!! E o pior é que é verdade...
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